sexta-feira, outubro 31

Sono


noite


"Eu não durmo, respiro apenas como a raiz sombria dos astros: raia a laceração sangrenta, estancada entre o sexo e a garganta. Eu nunca durmo, com a ferida do meu próprio sono. (...) Nunca sei onde é a noite: uma sala como uma pálpebra negra separa a barragem da luz que suporta a terra. (...)"

Herberto Helder - (walpurgisnacht)

terça-feira, outubro 28

Estado de espírito


Off


Delírio


Hoje sou o silêncio. Sem vento, sem os teus passos a acompanharem-me. Sem o meu nome nos teus lábios, como música. Hoje sou só o silêncio, como se me tivesse perdido do mundo no mundo. Como se tivesse calado a minha sede em encontrar-te, lacrando os meus olhos.
O que é o eterno, o que é a perfeição? O que é o sonho, o imaginário? E porque imaginas tu uma felicidade eterna, digna da perfeição, onde todos os sonhos são possíveis? Sei que nunca te julguei perfeito ou ainda eterno, e por isso roubei tantas vezes, de tantos homens e mulheres onde imaginava pedaços de ti, pedaços de sonho, pedaços de mim.
E agora este silêncio. Não existe mar, nem ondas nas rochas, ou grãos de areia entre os meus dedos.
Não há sal na minha carne.
Aqui, onde me perdi, não há nada - e bem posso fechar os olhos que não corro o risco de sonhar-te - só este delírio, só esta certeza de que hoje apenas o silêncio pode existir em mim.

domingo, outubro 26

Só a saudade nestas mãos de menina


Talvez seja o inverno, não sei bem. Quando o frio aperta lembro-me sempre dos meus longos cabelos e das minhas mãos de menina fora dos cobertores - da minha posição retorcida, quase fetal, dentro de um qualquer pijama – e lembro-me também da chuva, na minha janela, a bater nos estores. Era música, não sei, era tal como hoje. Como os passos da minha mãe, as mãos da minha mãe a estenderem o roupão por cima de mim, e eu sempre de olhos fechados, sempre a disfarçar o sono para não perder aquele carinho.
Este género de saudosismo amplia-se, e eu não percebo porquê. A minha mãe a aquecer-me os collants no calorífero e a ajudar-me a vesti-los, suspendendo-me no ar. Os braços seguros do meu pai, ele a levar-me uma caneca de leite quente à cama quando a tosse me roubava o ar. Os passeios, a chuva fora do carro. Os cobertores, o frio, o conforto.
Talvez seja este frio que, agora, me facilite estas memórias. É que agora tenho os cabelos curtos e não há mais roupões a meio da noite, nem collants a aquecer no calorífero. Há mais coisas, eu sei, mas talvez seja o inverno. Talvez seja esta trovoada a estrondear nos meus ouvidos e esta falta de coragem de correr para o colo de alguém. Porque eu sou hoje o que sempre fui, além do novo que ganhei em mim, e apesar de maiores estas mãos continuam as mesmas mãos de menina, sempre as mesmas mãos de menina a espreitar por fora dos cobertores.

quinta-feira, outubro 23

Estado de espírito


café?


Memória


É possível criar tons de azul para os teus olhos, imaginar-te sem pressas como quem espera pelo entardecer. Riscar o teu rosto na parede esbatendo os contornos, esculpindo arestas, embaciando-te os lábios.
É possível amar-te, assim, sem o perigo da eternidade. Esconder o medo nos bolsos e a vergonha de nunca ter o ter vencido. E a memória é só isto, é só isto, é esta faca que me atravessa o peito e me impede de parar. Não são as imagens, ou as fotos, as lembranças do luar. Não são as crianças que corriam na rua, ou a chuva que caía da última vez que te vi. A memória é só isto, ou o deslumbramento do álcool no meu sangue, vítima da vontade de deslembrar. Esta rua, este asfalto, estas luzes que me seguem a sombra, este cheiro, os teus olhos, as tuas mãos pelo ar.
Não é o passado, ou ainda o presente. Ou o único segundo de fuga que tenho ao acordar. Os meus pés na areia, as estrelas a caírem, a tua voz a chamar. A memória não és tu, e é tão somente isto: a vontade de não sonhar.

sexta-feira, outubro 17

Estátua


Quando o tempo reabre feridas perdidas na memória a espera torna-se insuportável, e a esperança tem um travo amargo, como se fosse o único mal que restou na caixa de Pandora.
Às vezes tenho vontade de dobrar os dedos para dentro do peito, de apertar o coração e calcar as feridas da ilusão, de o atar todo em ligaduras de iodo e esperar que o tempo o seque.
Tenho guardados em mim os teus olhos, uns olhos que nunca existiram, uns olhos que turvaram os meus dias e me devolveram a solidão.
Afinal eu não me conhecia, e esta ironia de ser e não ser, a teimosia que temos em nos conhecer, resulta apenas na ingratidão da oferta do pouco que somos ao que julgamos ser tudo.
Neste momento não sei mais como saltar por cima do tempo, da carne. Não sei mais como sair do sono profundo da anestesia.
“Quero que te olhes ao espelho e te encontres no teu reflexo” – mas isto são tudo palavras (e eu sei que sentidas) vindas de um amor profundo que sempre foi a amizade. Sossega. Agora quando me olho ao espelho não vejo mais veias saltarem-me da pele, nem corro mais as mãos para acalmar os soluços dos olhos. Agora vejo-me só a mim, sem qualquer significado, estátua colorida pelos dias. De onde em onde, noto vazios, pedaços que caíram com o tempo. E não voltam, e não voltam. Conseguem somente ver as suas arestas afagadas pela força que vive nos contornos que ficaram.
E o que me custa mais é pesar quem me ama com os meus delírios, arrancando-lhes também, involuntariamente, pedaços coloridos.

Se eu pudesse, desaparecia.

sábado, outubro 11

Rainfall


"I’d like to know what’s going on this world we’re living on,
There’s so much poverty all around me this insanity that surrounds me.
Distant worlds seem so far away people’s lives changing every day.
Oh no I can hear the rain fall, I can hear the rain, I can hear the rain fall, I can hear the rain


I’d like to know when you and I
Will stop walking and passing by
So much ignorance that my eyes see.
My experience cannot blind me

Distant worlds seem so far from here seasons change and the rain is near
Oh no I can hear the rain fall I can hear the rain, can you?
‘cos I can hear the rain fall, can you? I can hear the rain fall

I’d like to find a new reality something more than this fantasy
No more false dreams, no more mind games,
I can’t even see through this dark rain.

Distant worlds seem so far away people’s lives changing every day oh I can hear the rain fall."


Nitin Sawhney - rainfall

quinta-feira, outubro 2

Here i go


See you next week..!
Song For Catherine


"In your dreams, in your bed
in everyone and in your head
on the wall, it ain't white
in every letter that you write

In the way people talk
in the shape of stones and rocks
he's your hero, he's your God
he listens to this song and nods.... and nods

In a voice, in a sound
when you're happy when you're down
it will pass, things will change
but you don't want to hear that

In the scent of the air
on the clothes that people wear
you feel love, so does he
and he's telling you, "I'm here".... "I'm here"
he's here.... he's here"


K's Choice

quarta-feira, outubro 1

Livros


- Também sublinhas os livros?
- Também.
- E também acrescentas palavras, sempre que te apetece?
- Também.
- (...)
- E às vezes apetece-me rasgar folhas. Uma vez estava tão furiosa com um livro que me apetecia arrancar umas folhas..!
- Estavas furiosa com um livro?
- Estava.

terça-feira, setembro 30

Absorção


absorção


"O meu olhar prende o presente
mas a minha alma absorve o futuro
não sei o que fiz ao passado
talvez o tenha enterrado
junto às tuas memórias

Perdido algures no tempo
retido numa praia qualquer
bem perto do mar."


Teresa

segunda-feira, setembro 29

Olhe, era um safari-cola, se faz favor


Safari

Por acaso


"fico admirado quando alguém, por acaso e quase sempre
sem motivo, me diz que não sabe o que é o amor.
eu sei exactamente o que é o amor. o amor é saber
que existe uma parte de nós que deixou de nos pertencer.
o amor é saber que vamos perdoar tudo a essa parte
de nós que não é nossa. o amor é sermos fracos.
o amor é ter medo e querer morrer."


José Luís Peixoto - a criança em ruínas

quinta-feira, setembro 25

Fade


Fade


"(...) Never fade from my mind. Shower me and give me life. Never fade from my mind. Always there when I close my eyes. Never fade from my mind. Shower me and give me life. Never fade from my mind. Always there when I close my eyes...
Hesitate. Pull me in.
Breath on breath. Skin on skin.
Lovin' deep. Fallin fast.
All right here. Let this last.(...)"


Solu Music feat. Kimblee - Fade

quarta-feira, setembro 24

Take this life


Olhos. Mãos.
Quando te vi não sabia que eras tu.
Um dia pediste: abre os olhos - e eu mantive-os fechados, tão cerrados que não via nem um traço de luz.
Quando o sol nascia, não era nada comigo.
Acordava, bocejava, levava horas para me mexer.
Não te queria.
Não te via.
Não te tocava.
Solidão.
Desejo de solidão.
O tempo passava e parecia que a vida não existia, que estava apenas à espera de um motivo para morrer. E quando em segredo te olhava, tinha medo de viver.
Medo.
E no entanto procurava-te em cada recanto do dia.
Sonhava.
Imagináva-nos eternos, sem princípios nem leis, sem termos sequer nascido.
Almas.
Qualquer coisa que nunca tivesse fim.
Depois acordava e telefonava-te. Não apareças mais - pedia. E tu não aparecias.
Não entendias.
Iamos morrendo em cada dia e tu não entendias, não compreendias que não queria morrer contigo.
Ver-te crescer, envelhecer, morrer.
E perder-te.
E nunca te tive por medo de viver.


eu sei que já tinha colocado este post há uns meses atrás, mas hoje... tem uma razão de ser...

segunda-feira, setembro 22

Abrigo


abrigo


Uma casa - um lugar ao sol - uma chávena de café - o cheiro a bolo quente - o som do crepitar da lenha - uma mão estendida - dois braços abertos - uma pequena tenda no quintal à minha espera - a minha infância - os meus livros - a minha música - as palavras.

Um abrigo.

sexta-feira, setembro 19

Não vou por aí


Não vou por aí


"Vem por aqui --- dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom se eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui"!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
--- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha mãe.

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
Por que me repetis: "vem por aqui"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis machados, ferramentas, e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátrias, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha Loucura!

Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
--- Sei que não vou por aí."


José Régio - Cântico Negro

quarta-feira, setembro 17

Mercredi, chá e scones


- Apetecia-me cavar um buraco no teu quintal, esgravatar a terra e meter-me lá dentro. Depois cobrir-me até ficar só com os olhos de fora, a boca e o nariz para respirar.
- Apetecia-me recuperar a tua rebeldia, chorar a tua dor, acalmar a tua revolta. Oferecer-te os teus abraços, tocar-te nos cabelos... e todos os dias quando os primeiros raios de sol aparecessem ir ter contigo, suavemente abrir-te os olhos, e perdermo-nos no silêncio do tempo a passar. E quando a lua aparecesse, devolvia-te à tua dor e contar-te-ia uma história cheia de cores.
- E as cores devolver-me-iam a paz? O calor da terra criaria a ilusão dos abraços?
Sabes... já o fiz. Já o fiz na areia escorregadia das praias, no linho dos meus lençóis, na opacidade dos meus cortinados. Mas o casulo desfez-se sempre e, em todas essas vezes, tive que voltar a nascer. E em todas essas vezes cresceram-me asas com todas as cores.
É isso, e isso sou eu.
- O casulo desfaz-se sempre e não nos deixa o eu anterior. E a terra, nos seus fortes abraços, vai-nos sempre retirando um pouco da nossa pureza, da inocência que faz os nossos olhos brilharem.
Isso somos nós – o mundo – e aquilo que um dia fomos... As nossas asas, preenchidas de cores, libertam-nos, fazem-nos voar uma nova vida. E o ciclo termina, fechamos mais uma caixinha de sonhos.
Quando voltaremos a abrir a próxima? E depois, o que acontece?
- Depois, a confusão dos dias devolve-nos os sonhos. Depois, caem-nos as asas e sentimos as artérias a explodirem-nos no corpo, o sangue a correr pelos dedos. Depois, voltamos aos livros e às aguarelas, aos cigarros. Depois, enfeitiçamo-nos por olhares, por sorrisos, quando tudo o que nos faz falta é paz. Depois, voltas tu, abres-me suave e novamente os olhos, e perdemo-nos novamente no silêncio.
Ainda há sonhos, ou o sonho acabou?
- O sonho acabou, mas ainda há sonhos. Ainda existem uma série de caixinhas vazias que esperam ansiosas por todos os sonhos que irás ter.
Queria poder dizer-te que os sonhos tornarão e serão bons, que poderás andar com eles a correr o mundo, porque esses serão luminosos, porque esses serão belos.
Gostava de ser médica de sonhos e de poder curar os intermináveis sonhos tristes...
- Gostava de contornar todas as curvas deste abismo, de saltar as pedras do teu quintal. Gostava de deixar o sangue subir-me à garganta e gritar para fora toda a confusão.
Às vezes falha-me a força para devolver o brilho aos meus olhos, e então entrego-me aos teus, aos de todos que amo, para conseguir sorrir.
- Agora voltamos a tocar o chão que espera por nós. Voltamos a procurar o brilho nos olhos de alguém. Voltamos de seguida a querer voar, a abraçar com toda a nossa força o próximo sonho.
Porque vamos fazê-lo..!


Tânia, Teresa, e um reflexo no bule.

segunda-feira, setembro 15

Unravel


Dissolução


"While you are away
My heart comes undone
Slowly unravels
In a ball of yarn
The devil collects it
With a grin
Our love
In a ball of yarn

He'll never return it

So when you come back
We'll have to make new love"


Björk - Unravel



"Quando a distância separa os amigos uns dos outros, a música pode voltar a uni-los. Escuta uma canção e pensa nos bons velhos tempos passados com amigos com quem costumavas ouvir música. Poderás chegar à conclusão que eles parecem tão próximos como o compasso seguinte." - Alaric Lewis, O.S.B.